sexta-feira, 18 de junho de 2010

O médico e a princesinha


Há algumas semanas, depois de passar mal durante todo o fim de semana, resolvi ir ao pronto-socorro tentar resolver o problema. Em geral, não faço isso, a não ser em caso de vida ou morte, porque detesto ambiente de hospital e sou meio desconfiada do que um médico que te olha por cinco minutos possa entender da sua doença. Mas, enfim, como além de incômodo no aparelho digestivo, eu tinha uma dor no corpo absurda -e estamos em época de dengue, gripe suína e outras doenças estranhas -, resolvi me arriscar.

Bom, chegando lá, passei pela triagem de praxe e fiquei aguardando o atendimento. Eis que o médico me chama e, ao entrar na sala, me solta esta: "O que você está sentindo, princesinha?" Confesso que meu enjôo, que já era grande, ficou ainda maior. "Princesinha?", era só o que me faltava.

Como o mal-estar era grande, nem tive forças de responder nada, só dizer onde eu sentia dor. O que eu queria era sair o mais rápido possível dali, de preferência melhor do que entrei. Mas fiquei encafifada. Por que raios um cara que eu nunca vi na vida me trataria com tal intimidade? Será que é porque sou baixinha e pequena? Mas eu não tenho cara de adolescente, apesar de parecer mais nova do que sou. Ou porque eu estava fragilizada? Enfermeiras têm mania de tratar os pacientes como bebês, mas ainda não tinha me deparado com um médico com esse espírito - nem o pediatra da minha filha de 8 anos a trata assim.

E a consulta inteira foi assim - "Princesinha, vou pedir uns exames para checar se está tudo bem". "Princesinha, vou receitar uma medicação para você ficar bem logo". "Você vai sarar logo, viu, Princesinha?". Eca! Justo comigo, que, de personalidade, estou mais para Fiona, do Shrek, do que para Branca de Neve ou Cinderela.

Acho que, da próxima vez que eu me sentir mal, se não for um princípio de infarte, AVC ou um traumatismo em qualquer osso, vou ficar em casa mesmo, na base do chazinho. Afinal, depois de todo essa "meiguice", o diagnóstico foi: virose! Ou seja, algo que não tem cura e que temos que esperar passar. Pronto-socorro, estou fora!

domingo, 16 de maio de 2010

Bizarrices do cotidiano

Deve ser meu sangue português que me faz ser tão literal, mas certas práticas do dia a dia me parecem muito estranhas e sem sentido. Está certo que chego ao limite de, quando alguém marca comigo um compromisso entre 9 e 9h30, chegar às 9h15, mas algumas coisas são muito loucas, principalmente algumas originárias das nossas "autoridades". Exemplos:

1) Pagar seguro para cartas enviadas pelo correio - Não é obrigação o Correio entregar a carta intacta no endereço correto? Não é por isso que o consumidor paga?

2) Ter desconto no IR para pagamento a planos de previdência privada - Isso não é uma confissão do Estado brasileiro de que a previdência oficial é realmente vergonhosa e de que é preciso pagar por fora para ter uma aposentadoria decente?

3) Ter desconto no IR para pagamento a planos de saúde e escola particular - Idem ao item acima. Sim, a saúde e a educação públicas são piadas hoje no Brasil.

4) A Igreja Católica recomendar aos bispos a não ordenação de padres adeptos de práticas homossexuais - Eu achava que para ser padre era preciso não ser adepto de nenhuma prática sexual. Isso quer dizer adeptos de práticas heterossexuais podem ser padres?

5) Torcer mais para a derrota do time dos outros que pela vitória do seu - Tem gente que chega a estourar rojão pela derrota de times adversários, mesmo quando não está jogando contra seu time. Não é muito negativismo? Ou a Era Dunga chegou também para os torcedores? Deve ser, senão não teria tanta gente torcendo contra o Santos, único time hoje que, de fato, apresenta o futebol que fez a fama dos brasileiros ao redor do mundo. Estou com medo dessa Copa do Mundo...

sexta-feira, 16 de abril de 2010

A falta do pai


Em complementação ao post anterior, reproduzo aqui uma entrevista publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos, sobre a importância do pai na formação das crianças. A matéria está disponível também no site do IHU, onde é possível ler outros textos sobre o tema.


'A falta do pai é sempre prejudicial'. Entrevista especial com Rubens de Aguiar Maciel

Por Redação IHU

“Há um grande desconhecimento em relação à importância da função paterna dentro da família. Nas relações entre mãe e pai, existe uma dinâmica que é alterada com a vinda de um filho. Por outro lado, o pai tem uma função muito importante na formação da personalidade e no aspecto emocional da criança”, afirma o psicanalista Rubens de Aguiar Maciel. Durante a entrevista que concedeu à IHU On-Line, por telefone, ele falou sobre as transformações que o papel do pai vem sofrendo nas últimas décadas.

Maciel analisou as pesquisas que são feitas no Brasil sobre a paternidade, sobre como as mulheres tratam o tema e também sobre a ausência do pai e a influência que o filho traz para o homem enquanto pai. “Hoje há alguns movimentos que procuram auxiliar os homens nesta tarefa de pai, ainda são poucos, mas existem grupos que se organizam no sentido de fazerem turmas de pais, de casais, onde vão discutir a questão da paternidade e do cuidado com os filhos. É algo que precisa ser incentivado e divulgado”, destaca.

Rubens de Aguiar Maciel é psicólogo e psicanalista. Atualmente, é professor na Universidade de São Paulo (USP) e colaborador do Hospital das Clínicas de São Paulo. É considerado um dos poucos especialistas do país na questão da paternidade.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Por que há tão poucas pesquisas sobre o tema da paternidade?

Rubens de Aguiar Maciel – O pai ficou em segundo plano nas investigações científicas e na sua relação com os filhos. Isso talvez porque a presença do pai dentro da família tivesse um papel um pouco mais distante até pouco tempo atrás. Há algumas décadas, o pai não era tão solicitado, como é hoje, para conviver no aspecto emocional com seus filhos e com a mulher. Ele cuidava muito mais do trabalho e de prover a família financeiramente. A parte da educação moral e dos cuidados com os filhos sempre ficou mais com a mãe. Por isso, a relação mãe-criança, mãe-bebê era mais intensa e mereceu mais estudos. Com as transformações econômicas, sociais e dos costumes, o pai hoje participa de uma maneira muito mais intensa e, acredito que, por esta razão, o interesse pela figura e função do pai na formação da personalidade da criança começou a crescer.

IHU On-Line – Quais são as transformações do papel do pai?

Rubens de Aguiar Maciel – Historicamente, o papel do pai sofreu transformações radicais de fato. Na pré-história, sabia-se que o filho tinha uma ligação com a mãe, já que provinha dela. Mas, em um passado remoto, não se tinha a ideia de que o pai fosse responsável pela fecundação. A mãe poderia engravidar pelos espíritos, antepassados ou por tocar em um animal ou em um mineral, de maneira que o pai não tinha a consciência do seu vínculo genético com o filho. Acredito que, por essa razão, a responsabilidade do pai era quase que nula. As coisas foram se transformando, e se descobriu, aos poucos, que a gestação era proveniente de uma união sexual e, desta forma, o pai tinha participação na concepção da criança. Assim, a responsabilidade e a ligação começaram a se estabelecer de maneira mais forte.

Mesmo assim, ainda em épocas longínquas, os grupos sociais eram muito extensos. A criança convivia com uma família extremamente numerosa, muitas vezes, convivia com uma variedade de empregados e funcionários da casa ou das propriedades. A criança sofria influências dessas inúmeras figuras. Com as transformações socioeconômicas, os grupos foram se tornando menores, até se reunirem no que hoje conhecemos como família nuclear, esta é constituída por pai, mãe e filhos, e, às vezes, alguns agregados. Mas o grupo familiar se tornou muito mais restrito, de maneira que a criança passa a ver o pai, a mãe e os irmãos como figuras de referência, e essas assumem uma importância de maior peso.

IHU On-Line – A paternidade é um tabu para as mulheres?

Rubens de Aguiar Maciel – Há um grande desconhecimento em relação à importância da função paterna dentro da família. Nas relações entre mãe e pai, existe uma dinâmica que é alterada com a vinda de um filho. Por outro lado, o pai tem uma função muito importante na formação da personalidade e no aspecto emocional da criança. Como os estudos não são muito extensos e aprofundados, se conhece pouco sobre isso, tanto a mulher quanto a sociedade de uma maneira geral. Na comunidade científica, isso também acontece, na medida em que os estudos não são muito extensos e abundantes. Iniciou-se, em vários outros países, algumas pesquisas que voltam suas atenções e esforços no sentido de olhar para a questão da paternidade, dentro da dinâmica familiar e na constituição emocional do filho.

IHU On-Line – A mãe tem influências no exercício da paternidade?

Rubens de Aguiar Maciel – Se for uma mãe amadurecida e segura emocionalmente, ela irá incluir esse pai, na relação com o filho, de uma maneira positiva. Entretanto, se essa mulher não é razoavelmente madura e se sua relação com o marido não está indo muito bem, pode haver uma tendência da mulher se unir ao filho e excluir o pai. É como se ela fizesse um pacto com o filho por várias razões, por ciúmes ou insegurança do marido, e, desta forma, prejudica o bom vínculo com a criança. Em outros casos, se a mulher é muito ansiosa, ela se volta de uma maneira extremamente exagerada para sua maternidade. Passa a ter um cuidado excessivo e, às vezes, desnecessário. A mãe acaba retirando a atenção de muitas outras coisas e principalmente do marido, que acaba se ressentindo disso. São mulheres que, por exemplo, não podem ter uma vida sexual, que procuram exercer cuidados exagerados com a sua saúde, que não tem uma vida social, se voltam exclusivamente para a gestação, de uma maneira que acaba excluindo o marido do convívio emocional com ela.

IHU On-Line – Quais as diferenças entre o papel e a função de pai?

Rubens de Aguiar Maciel – O papel está mais voltado para as expectativas sociais, culturais e morais de como o pai deve se comportar em relação à sua família e seu filho. Nesta medida, ele deve ser um provedor material, de educação, saúde etc. Inclusive, do ponto de vista legal, há uma lei, que está tramitando no congresso, que irá permitir aos filhos que processem seus pais por ausência afetiva, por falta de amparo afetivo. Porém, esses aspectos são relativos ao papel do pai, é o que se espera que o pai desempenhe. A função do pai diz mais respeito à formação emocional e da personalidade da criança.

O pai vai surgir como um exemplo em muitos aspectos para o filho. Vai surgir como aquele que deve estimular a criança a sair do vínculo simbiótico com a mãe. O pai irá induzir a criança para que ela vá se desligando da mãe, e vá se introduzindo na sociedade. A tendência natural da criança é estar grudada com a mãe o tempo todo, ser o centro das atenções e ter a mãe como objeto de seu controle. Se ela chora ou quer carinho, a mãe estará lá. O pai será aquela pessoa que dirá: “Ela é sua mãe, mas também é minha mulher. Ela é sua mãe, mas também é mãe dos seus irmãos. Você precisa substituir sua mãe, temporariamente, pelo pai ou por algum brinquedo”. Desta forma, o pai vai colocando a criança no convívio com a sociedade e vai fazendo com que ela aprenda a dividir esse amor simbiótico pela mãe com outras pessoas. A criança, primeiro, vai aprender a dividir essa atenção dentro do ambiente familiar, depois na escola, com a sua turma na adolescência, com seu grupo de trabalho na idade adulta, e vai destituindo seus amores primitivos por outros. A função do pai é formar uma criança que saberá dividir e lidar com seus desejos, assim ela conseguirá conviver em sociedade de forma mais harmônica.

IHU On-Line – E quanto aos limites, qual o papel da figura paterna?

Rubens de Aguiar Maciel – A criança ou bebê quer a mãe o tempo todo, exclusivamente, não quer dividi-la com ninguém. Um fato bem exemplar é quando se observa uma criança mamando no peito. A mãe está lá, conversando com ela e, se chega alguém, a criança olha para essa pessoa, mas continua com os dentes cravados no mamilo da mãe. Em relação a esse desejo de exclusividade e essa ligação contínua, isso precisa ser limitado. É preciso que se estabeleça uma separação. Neste sentido, o pai vem como limite.

IHU On-Line – Que lacunas se abrem a partir da ausência da figura paterna?

Rubens de Aguiar Maciel – A falta do pai é sempre prejudicial. Entretanto, a mãe pode exercer certas funções paternas. Neste sentido do limite, a mãe pode exercer em relação ao filho uma separação, dizendo para ele que também tem outras responsabilidades, mesmo na ausência do pai. Já a ausência do pai, como modelo, pode trazer uma série de fantasias e consequências, mais ou menos sérias, dependendo do convívio da criança com outras figuras masculinas. Se a criança tiver uma variedade de figuras masculinas para se identificar, o problema se dilui um pouco. Se não tiver, se o convívio for apenas com a mãe ou com figuras femininas, o problema aumenta, na medida em que não tem modelos para se projetar. A criança, no entanto, pode ir pegando esses modelos com seus amigos, com os pais dos amigos, mas não é a condição mais favorável.

IHU On-Line – Que tipo de transformações o filho traz para o pai enquanto homem?

Rubens de Aguiar Maciel – O fato de ser pai desperta, em muitos homens, um senso de responsabilidade que traz muitas ansiedades, muitas dúvidas. No sentido de que o homem se pergunta se é capaz de desempenhar aquele papel de forma razoável. A minha pesquisa foi feita com pais de primeira viagem, e, quando se trata do primeiro filho, os pais não sabem o que os espera. Eles não sabem se serão capazes de prover os filhos, de manter o emprego, de ser amorosos, darem bons exemplos, e, muitas vezes, não sabem se serão capazes de ter um comportamento diferente daquele que eles tiveram com seus próprios pais. Muitos deles não concordam com a educação que tiveram, esperam dar uma educação diferente, mas não sabem se tem capacidade e flexibilidade para se modificar.

IHU On-Line – Podemos dizer que hoje os pais têm uma relação mais afetiva e próxima com os filhos?

Rubens de Aguiar Maciel – Sim, isso vem mudando. Os pais hoje se mostram muito mais interessados e participativos. Essa quantidade enorme de separações faz com que os pais convivam com seus filhos e passem os finais de semana com eles. Há uma solicitação social, uma sugestão, por parte do comportamento, de que o pai deve se manter mais próximo. Isso tudo tem favorecido uma aproximação entre os pais e os filhos. Eu diria que é um começo e que ainda há muito para se avançar, mas a reação mais íntima entre pai e filho é um fato que vem se estabelecendo.

IHU On-Line – E que aspectos explicam a mudança de comportamento na paternidade, considerando essa relação mais próxima?

Rubens de Aguiar Maciel – Há transformações sociais e econômicas, com as famílias menores, que fazem as mulheres participarem do mercado de trabalho. Faz-se necessária uma divisão das tarefas dentro do lar com o marido, que passa a conviver com filhos de uma maneira mais intensa. Há também a divulgação dos conhecimentos científicos em relação ao comportamento. É indicado que esse pai não seja ausente, frio, distante e autoritário, e que deseje simplesmente determinar o futuro dos seus filhos, dizendo a eles o que devem seguir, a nível de carreira ou de relações. O cuidado com os desejos e as necessidades dos filhos, hoje em dia, é muito maior do que no passado. Hoje, há alguns movimentos que procuram auxiliar os homens nesta tarefa de pai, ainda são poucos, mas existem grupos que se organizam no sentido de fazerem turmas de pais, de casais, onde vão discutir a questão da paternidade e do cuidado com os filhos. É algo que precisa ser incentivado e divulgado.


(Envolverde/IHU Unisinos)

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domingo, 24 de janeiro de 2010

Os filhos não pertencem a um dos pais


Durante todo o desenrolar do caso Sean Goldman, um detalhe me chamou a atenção: ninguém, nenhum jornalista que participou das entrevistas dadas pela família brasileira do menino, questionou a razão pela qual a mãe trouxe o filho dos Estados Unidos dizendo que ia apenas passar férias no Brasil e nunca mais voltou, mantendo o menino consigo.

Acredito que o pai de Sean não maltratava o filho nem a mulher, caso contrário com certeza isso teria sido usado na batalha pela guarda do menino. Ela deve ter tido seus motivos, mas, quaisquer que tenham sido, não justificam a separação que impôs entre pai e filho. Por isso muito me espantou o clima criado em torno do caso, como se fosse uma questão de brasileiros contra americanos. Sinto muito pelos patriotas de plantão, mas era uma questão apenas de cumprimento da lei. Sem meias palavras, a mãe raptou o menino. Ao final, a lei prevaleceu, ainda bem, embora com muito atraso. A mãe manteve o menino ilegalmente no Brasil e, depois de sua morte, ele deveria ter ido imediatamente para a casa do pai, sem discussão.

Por que ninguém levantou essa questão? Acredito que ainda persiste uma visão de que a mãe é dona dos filhos e o pai é responsável apenas pelo sustento. Quando há uma separação, a tendência é as mães ficarem com as crianças, cobrarem a pensão dos pais - o que é justo e correto -, mas não facilitarem aos ex-maridos o exercício da paternidade. Vários não querem de fato exercer esse papel, mas os que querem muitas vezes não conseguem. As ex-mulheres falam mal dos pais para os filhos, atrapalham ou impedem as visitas, fazem chantagens emocionais.

Os filhos precisam tanto da mãe quanto do pai. Por isso sou contra mulheres que engravidam sem a concordância do parceiro e produções independentes. Não concordo com a visão de que os homens são meros doadores de espermatozóides ou fontes de renda. E quando o pai quer participar efetivamente da criação dos filhos, é preciso dar a ele esse espaço, mesmo que haja mágoas ou ressentimentos pela separação. Os filhos não podem ser os mais prejudicados numa situação criada pelos pais. Estes é que decidiram se casar, procriar e se separar. Por isso, aos pais cabe o ônus dessas escolhas, não às crianças. Uma pena que as pessoas não pensem nisso ao ter filhos.

No caso Sean Goldman, o pai tinha o direito de lutar pela guarda do menino. Tinha o direito de levar o menino para casa após a morte da mãe. Ele é o pai do menino - e não pai biológico como os jornais escreveram. É um pai que sempre quis exercer a sua paternidade. Entendo a dor da família dela, mas a mãe foi responsável pelo sofrimento que o menino passou durante todo o processo. Ela devia ter pensado em como tudo isso ia afetá-lo antes de tomar sua decisão. Se ela tivesse se separado e definido uma rotina de visitação com o ex-marido, o menino teria sido poupado. Nesse caso, o pai fez apenas o que devia fazer, lutar por seu filho.

Acho que vale a pena o alerta. Não se pode achar que as crianças pertencem a um dos lados. Da mesma forma como é preciso de pai e mãe para a concepção, ambos são necessários para sua criação - e têm direito a participar dela.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A Ternura


Sentir ternura é não sentir as dores do amor nem a ardência sexual da paixão. Ela flerta entre um e outro, mas possui uma pureza singular

Rubem Alves

Para começar o ano, em vez de escrever eu mesma, indico a leitura deste texto do Rubem Alves (sim, adoro as coisas que ele escreve) chamado A Ternura. É o sentimento com que iniciei 2010 e por isso quero compartilhar esse texto. Porque trata de algo que não se aplica apenas ao companheiro, mas a filhos, amigos e todos aqueles a quem queremos bem.


Leia o texto completo aqui.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Cidade inviável, por conta de políticos - e cidadãos - inviáveis


Basta qualquer chuva - seja fraca, forte, rápida, demorada - para o caos se instalar na cidade de São Paulo. Dependendo da quantidade de água, os efeitos podem ser apenas horas no trânsito ou alagamentos, deslizamentos, até chegar ao colapso da cidade.

Semana passada, por azar eu estava de carro e a mais de 2 km do meu escritório - duas coisas que evito ao máximo fazer - quando caiu um temporal absurdo, que durou uns 40 minutos. Ruas alagadas, carros entrando na contra-mão para fugir das enxurradas, ruas absolutamente congestionadas foi o resultado imediato. Consegui escapar da loucura fazendo trajetos alternativos e - confesso - algumas barbeiragens. Com isso, levei "apenas" duas horas para chegar da Vila Madalena ao centro da cidade, distância que costumo cobrir em 20 minutos em ocasiões normais.

Ontem também tive que ir sair de carro pela manhã para uma reunião de trabalho - dessa vez, para ir um pouco mais longe, à Vila Olímpia -, após uma chuva que começou na tarde de segunda e acabou na madrugada da terça. Por milagre, peguei trânsito apenas em dois trechos do percurso, e só na ida. A volta foi absolutamente tranquila. Mas a maioria das pessoas não teve essa sorte. A cidade ficou absolutamente parada, por causa de vários pontos de alagamento e de trânsito parado.

Esse foi o principal motivo pelo qual tomei a decisão, no início deste ano, de não mais trabalhar longe de casa. Aliás, não só trabalhar, mas de fazer qualquer coisa a mais de 15 ou 20 minutos a pé da minha casa ou do meu escritório - que ficam a quatro quarteirões um do outro -, seja ir ao médico, seja sair para jantar, seja estudar, seja ir às compras. Meu bairro é agora meu mundo, e só saio dele quando absolutamente necessário, como aconteceu nesses dois dias. O tempo que eu perdia no trânsito gasto hoje fazendo coisas muito mais úteis e verdadeiramente importantes, como estar com a minha filha, com meu marido e com meus amigos.

Mas isso não me faz ficar menos indignada com o descaso com que a cidade vem sendo tratada há décadas. Como uma cidade importante como São Paulo pode entrar em colapso por causa da chuva e do trânsito? O que os governantes fazem com os impostos que pagamos? E todos, sem exceção, porque alguns dos que já deixaram o cargo agora começam a culpar a atual administração pelos problemas, como se não tivessem tido a oportunidade de fazer alguma coisa - sim, tiveram e não fizeram. Fizeram túneis, fizeram obras de maquiagem, mas nada que chegasse perto de melhorar a vida na cidade. Nem em termos de transporte, nem em relação ao problema das enchentes, que envolve limpeza, permeabilização das vias públicas, melhoria das condições de habitação nas periferias e muitas outras questões.

Hoje, estou com vergonha de viver num lugar governado por tanta gente corrupta, cara de pau e incompetente. E procurando motivos para continuar otimista em relação ao futuro do país. Mas está difícil. Porque o problema não está apenas nos governantes - mas em todos nós, os habitantes desta cidade e deste país, que não fazemos nada para mudar de verdade essa situação. Nem adotamos um estilo de vida mais sustentável, nem exigimos desses governantes o que eles devem fazer.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Cada universidade tem os alunos que merece


E não é que a Uniban perdeu uma ótima oportunidade de, ao contrário do que se dizia por aí, mostrar que era uma instituição séria? Pois é, só que em vez de tratar a agressão à aluna que foi de minivestido às aulas com seriedade, a universidade mostrou que é tão ignorante, preconceituosa e covarde quanto a turba que lá estuda.

Em um decisão arbitrária, optou por expulsar a estudante agredida e apenas suspender os alunos que participaram do tumulto e foram identificados. E usando os mesmos argumentos que os agressores da moça, vejam só! Está aí um caso clássico de culpar a vítima pela agressão sofrida - e caso clássico também daquele ditado "cada povo tem o governo que merece", aqui adaptado "cada escola tem o aluno que merece".

Como a instituição não é conhecida exatamente pela qualidade da educação que oferece, imagino que os responsáveis pela brilhante decisão de expulsar a moça devem ter feito as contas e concluído que era melhor peder uma aluna a perder vários se tivesse que punir todos os causadores do tumulto. Porque, caso estivesse preocupada com sua reputação acadêmica e educacional, teria tomado medidas que tornassem o episódio uma oportunidade de refletir e educar sobre os atos de todos os envolvidos, vítima e agressores. Mas se tem alunos medíocres e tacanhos, é porque os acolhe e protege, de olho no lucro das mensalidades.

Também, se não tomou providências adequadas em um episódio anterior, quando uma aluna foi agredida pela turba de alunos violentos da mesma unidade porque não podia participar de uma manifestação estudantil, era ilusão pensar que tomaria uma atitude decente neste caso. Agora, a universidade que já não era reconhecida por sua excelência acadêmica, passou a ser objeto de piadas, críticas e manifestações de repúdio não só no Brasil, mas também no exterior. Pois é, a mesma internet que serviu de arma para a turba humilhar a moça publicamente agora virou uma ferramenta para lançar ladeira abaixo a reputação da universidade.

Se eu fosse a moça agredida, agora não voltaria para a Uniban nem que me oferecessem o curso inteiro de graça. Imagina o que qualquer empregador vai pensar quando lhe chegar um currículo de um diplomado da Uniban nas mãos? Até a semana passada, apenas consideraria um candidato formado em uma universidade de segunda linha. Agora...