sábado, 17 de outubro de 2009

Cegueira e religião

Considero-me uma pessoa religiosa. Não porque cresci numa família católica e tenha seguido todos os ritos do catolicismo até determinada fase da vida, mas porque acredito em Deus. Talvez isso explique minha curiosidade em frequentar as cerimônias de outras religiões, para conhecer as diferentes formas de se conectar com Ele.

Faz algum tempo que deixei de acreditar em igrejas e religiões, embora sinta simpatia por algumas - e continue sendo religiosa. Acho que cansei de ver as pessoas se apegarem a isso para justificar fraquezas e atos odiosos. Também não gosto da mania que os "líderes" de algumas religiões têm de se considerar donos da verdade, o único caminho de chegar a Deus, e iluminados que sabem o que é certo e errado para todos. Também detesto o barulho e o falatório que há na maior parte dos templos religiosos. Prefiro o silêncio e a discrição. Acho que por isso tenho mais simpatia pelas religiões orientais, como o budismo. Concordo com uma campanha bem-humorada que circula pela internet, acredito que Deus não é surdo. Por isso podemos ficar em silêncio e orar em pensamento.

Também desconfio daqueles que citam a religião o tempo todo para justificar seus atos, conquistas e erros, usam camisetas ou colocam adesivos no carro com frases sobre sua crença. Lembram-me aquelas namoradas ou namorados inseguros, que precisam ouvir "Eu te amo" o tempo todo, porque não acreditam de fato no amor do parceiro. No caso, devem ter pouca certeza da própria fé, caso contrário não precisariam ficar reafirmando isso constantemente. As pessoas mais religiosas que conheço não falam sobre igreja e religião - elas simplesmente vivem a sua fé.

Tampouco gosto de religiões ou seitas que pregam que é necessário castigar o corpo ou ingerir bebidas ou alimentos para abrir a percepção ao divino. Concordo com o que diz o educador e escritor Rubem Alves: "a minha experiência com o sagrado vem sempre fora de lugares religiosos, diante do mistério da noite estrelada, de uma teia de aranha, de uma árvore florida, da ternura do amor, do riso de uma criança, da frescura dos riachos, da graça do vôo dos urubus, da alegria do cachorro que me recebe. Essas coisas que me dão alegria e que, por isso mesmo, são para mim sagradas, eu nunca as encontrei nas igrejas. Sagrado, para mim, é aquilo que meu coração deseja que seja eterno. O sagrado é a realização do amor." Sendo assim, qualquer coisa que me turve os sentidos me afasta do que eu considero sagrado, não me aproxima.

Também não é Deus quem me faz ser um ser humano melhor. Procuro ser melhor porque acredito que assim minha vida terá valido a pena, não terei passado por ela à toa. Não recebi nenhuma revelação, nenhum milagre aconteceu na minha vida. São os acontecimentos do dia a dia que me movem a me corrigir. Não é o medo do inferno. É fácil jogar em Deus a responsabilidade dos nossos atos, mas essa responsabilidade é de cada um de nós.

Só que é preciso ter coragem para assumir essa responsabilidade, coisa que muito pouca gente tem, infelizmente. Por isso, as religiões estão aí, e novas são criadas o tempo todo, para servir de muletas a quem não consegue andar com os próprios pés ou de bengala aos cegos que não querem ver.

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Recomendo a leitura do texto de Rubem Alves cujo trecho coloquei em meu post. Lindo e esclarecedor, para quem acredita na religiosidade como nós.

Um comentário:

Camis Zolla disse...

Olá Carmem, como vai! Navegando pela blogosfera, achei seu blog. Muito legal e super gostoso te ler. Esse seu último texto, sobre religiosidade me remeteu a algo que escrevi tempos atrás:

http://camiszolla.blogspot.com/2009/09/sobre-religiao.html

Como é bom cruzar, mesmo que virtualmente com pessoas esclarecidas e com uma bem resolvida relação com Deus.

Uma ode a nós, religiosamente laicas!

Um abraço!