terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Prazer...

Finalmente, depois de muito tempo, voltei a sair sem rumo apenas para fotografar. Engraçado como a gente, na correria do dia-a-dia, sempre acaba deixando de lado as coisas que nos fazem mais felizes. Ficamos presos ao que nos chateia, pressiona, fere, em vez de voltar nossa atenção ao que há de mais importante: as coisas simples da vida.

Caminhando pelo centro de São Paulo com uma câmera na mão e uma amiga querida por companhia, tive um tempo raro na minha rotina apenas para deter meu olhar sobre pequenas coisas, muitas escondidas sob massas de informação e feiúra. Um pedaço de céu azul límpido, tão difícil de se ver por aqui; flores extremamente coloridas, espremidas entre as grades de um edifício; o sorriso e o olhar puro de um velho malabarista, que tenta ganhar a vida na dura metrópole; até mesmo as belas formas das estátuas negras das fontes, quase invisíveis para os apressados transeuntes. E, aqui e acolá, preguiçosos e elegantes gatos, de todos os tamanhos e cores, aproveitando as nesgas de sol para lagartear sossegados.

Verdadeira atividade de meditação, fotografar. Através da lente, apenas meu olhar permanecia vigilante, tentando encontrar cenas singelas para revelar com minha câmera. A mente estava completamente vazia. As preocupações,angústias, tristezas, ansiedades, todas haviam desaparecido. Por certo retornariam mais tarde – como de fato retornaram –, mas, nesse momento, me deram um sossego. E, por ver tanta beleza escondida, meu coração se encheu de alegria e satisfação. Voltei para casa com um frio na barriga gostoso, de grande prazer...

É, sou obrigada a discordar de Cazuza. Não são só as mães que são felizes. Os fotógrafos também. Mesmo os amadores, como eu.

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Rompendo barreiras

Semana passada uma revista mostrava as chances cada vez menores de as mulheres se casarem depois de certa idade. O problema, segundo as moças entrevistadas, é que, em sua busca por sucesso profissional, reconhecimento e liberdade, acabavam sendo exigentes demais e deixando as chances de um relacionamento duradouro passar.

Lendo os depoimentos, fiquei pensando como é difícil nos livrarmos de certos padrões, mesmo quando o cenário ao redor já é completamente diferente. As mulheres ainda procuram pelo "bom partido", o homem que assume o papel de provedor, mesmo que elas sejam plenamente capazes de sustentar a família sozinhas. E, em busca desse homem idealizado, acabam deixando de lado relacionamentos que poderiam ser gratificantes, apenas por não corresponderem ao ideal do tempo das nossas avós - que, aliás, sequer sonhavam em chegar aos lugares a que chegamos hoje.

Não é à toa que os homens se queixam de que não entendem as mulheres. Elas exigem liberdade, vão à luta por igualdade, mas, na hora do casamento, continuam aspirando pelo homem provedor, pelo macho tradicional, o bem-sucedido, aquele que paga as contas, que se responsabiliza pela casa e pela família, que trata a mulher como um bibelô (ou, no pior dos casos, como um objeto), não como uma parceira, uma companheira que divide em pé de igualdade as agruras e as alegrias do dia-a-dia, que está ao seu lado apenas em nome de um afeto verdadeiro. Não conseguem vencer os preconceitos sociais para ficar com o homem que desejam, caso ele não se enquadre nesse padrão.

No entanto, embora reclamem desse comportamento contraditório das mulheres, eles também não sabem lidar com aquelas que já conseguiram superar as barreiras sociais e não cobram deles o papel de provedor. Poucos são aqueles que ficam numa boa ao lado de uma mulher independente, que não precisa da segurança e do dinheiro alheio para seguir o seu caminho. No entanto, muitos são os que se dispõem a ficar com mulheres de classe social mais baixa, menos instruídas, menos educadas, mais jovens, menos maduras. Mas 'ai' da mulher que se atrever a fazer o mesmo...

O que não perceberam ainda é a maravilhosa liberdade que há por trás dessa nova posição da mulher na sociedade. Quando não precisamos ficar com alguém em razão de conveniências financeiras ou sociais, podemos manter relacionamentos baseados em sentimentos como amor e afeto. Quando não temos necessidade de corresponder aos comportamentos que esperam de nós, podemos relaxar e aproveitar todo o prazer de dividir a longa jornada da vida com um companheiro leal, sincero, verdadeiro - não importa se rico, pobre, branco, negro, culto, não culto, maduro, imaturo, bem-sucedido ou não...

sexta-feira, 29 de setembro de 2006

Filho não pode ser desculpa

Há algumas dias, soube que um conhecido decidiu se casar porque a moça com quem ele tinha começado a sair há uma semana engravidou. Essa notícia me deixou assombrada. Como é que alguém, em sã conscìência, toma uma decisão dessas? O que, aliás, não acho que se justificaria nem se o casal se conhecesse há três meses.

Há duas questões muito sérias nesse caso. Em primeiro lugar, qual a razão que deve levar duas pessoas ao casamento. Dividir a vida com alguém é coisa bastante complicada. É preciso aprender a ceder, a respeitar, a ouvir, a ter companheirismo e, inclusive, a amar. Não é uma banalidade. Trata-se de um projeto de vida, de longo prazo, mesmo que a separação seja uma possibilidade acessível a qualquer momento (e que bom que é assim, para que ninguém fique condenado à infelicidade). Portanto, a decisão para dar esse passo deve estar livre de pressões, baseada numa vontade espontânea, num desejo sincero de unir sua vida à de outra pessoa. Começar um projeto tão importante por causa de uma gravidez não planejada, na maioria das vezes até indesejada (por uma ou ambas as partes), é arriscado e, eu diria, até mesmo leviano. É não dar o devido valor a esse ato, que dá origem à instituição básica da nossa sociedade, a família – seja ele atestado por um papel ou pela simples concordância do casal. Que irresponsabilidade jogar nas costas de um ser que ainda nem nasceu, e que não pediu para ser concebido, uma decisão que cabe a duas pessoas adultas, racionais.

Em segundo lugar, ter um filho é uma decisão ainda mais séria. Não deveria ser fruto do acaso ou de um descuido, ou até mesmo de uma artimanha, principalmente no mundo de hoje, tão complicado e complexo. Também é um plano de vida, porém, muito mais importante, porque, ao contrário do que acontece com o casamento, é de fato para toda a vida. Educar é uma tarefa árdua, que exige dedicação integral, e de extrema responsabilidade, não só com o filho, mas com toda a humanidade. Somos, sim, responsáveis pelas criaturas que colocamos nesse planeta e pelo modo como elas vão se relacionar com tudo o que está à sua volta. E como é esse relacionamento quando a pessoa descobre que não foi resultado de um desejo genuíno de seus pais, mas "aconteceu"?

Por isso, acho uma pena que não seja possível fazer com todos os casais a avaliação realizada pelas varas de família com aqueles que pretendem adotar uma criança. O fato de se ter todo o aparelho orgânico para gerar uma criança não significa que se é apto a ter filhos. Não é preciso ir muito longe para saber. Exemplos disso podem ser vistos a todo instante e em qualquer lugar.

Em pleno século 21, só engravida quem quer ou quem realmente deixa seu destino ao sabor do vento, nas mãos de outros. Por isso, meninos, sejam responsáveis para que a sua decisão de casar e formar uma família seja pessoal e verdadeira, não culpa de outra pessoa. Meninas, sejam responsáveis para não cair na tentação de querer segurar o amado com um filho. Pode parecer que tudo se arranja no curto prazo, mas com o tempo a decisão vai pesar nas costas de ambos, e daí para o ciclo de lamentações, acusações e infelicidade é um passo.

quarta-feira, 6 de setembro de 2006

O valor da liberdade

Nada na vida compensa o preço de ser livre. Como é bom poder fazer o que se quer, escolher o próprio caminho, traçar os próprios planos. Infelizmente muitas vezes a gente se deixa escravizar pelos desejos dos outros, por medo de ficar sozinho, de não ser amado ou admirado, sem perceber que isso, no final, nos afasta ainda mais do amor e da felicidade.

De fato, a liberdade é condição para que haja amor, respeito e felicidade. Sem ela não há nada disso. Há tristeza, frustração, conformismo. Já fui escrava dos desejos de outros. Já tentei ser diferente para agradar as pessoas ao meu redor. Já concordei em ficar amarrada, em fazer apenas o que mandavam, em dar satisfação de cada passo meu, para ser querida, para ter alguém ao meu lado, para não me sentir sozinha, para ser respeitada. E constatei que isso não adiantou nada. Não fui mais amada nem mais respeitada. O que consegui foi apenas ser controlada e ficar preocupada cada minuto do dia em agradar, em tentar adivinhar o que se esperava de mim, em não errar.

O resultado foi que nunca me senti tão sozinha, tão sem amor. Nem tão tensa e frustrada. Foi apenas quando decidi romper as amarras que eu mesma deixei que me colocassem que descobri como a liberdade é fundamental para a vida, em todos os sentidos. Como sem ela não é possível ser uma pessoa plena. E hoje, livre que sou, apesar dos tropeços e das dificuldades, sei que não é possível ter amor e respeito sem ela. Podemos ter companhia, uma posição profissional até confortável, mas amor e respeito verdadeiros, não.

Nossas escolhas e opiniões têm de ser nossas, e de mais ninguém. E isso não significa ser egoísta. Ceder faz parte de qualquer tipo de relacionamento, seja pessoal, seja profissional. Mas não se anular, se submeter, se privar de suas opiniões e seus sonhos por medo de não ser aceito ou amado. Sem liberdade, perdemos a nossa identidade e, consequentemente, qualquer chance de ser feliz.

terça-feira, 29 de agosto de 2006

Felicidade

Como parece difícil alcançar a tal felicidade. Todo mundo corre atrás dela, mas parece que ninguém encontra. Ou apenas uns poucos afortunados. Onde será que ela se esconde? E qual o segredo de quem consegue encontrá-la?

Na verdade, não deveria ser tão difícil. O problema é que nós fugimos dela, corremos de tudo que nos dá um prazer genuíno. Fomos criados ouvindo que o mundo é um vale de lágrimas, que tudo que é bom exige muito sacrifício, até que ser mãe é padecer no paraíso. Ou seja, que tristeza não tem fim, felicidade sim.

Por isso, quando encontramos a felicidade, não sabemos lidar com ela. Fugimos, estragamos tudo, repetimos erros, porque não acreditamos que podemos viver felizes. Somos ensinados a sempre buscar algo mais, para não nos permitirmos usufruir do prazer que obtemos das pequenas coisas cotidianas, da felicidade que se apresenta para nós de forma sutil.

E inventamos novos equipamentos e coisas, novas aspirações, novos desejos, novos medos, novas complicações, só para continuarmos eternos insatisfeitos, infelizes, ansiosos, lamentando a tal felicidade que nunca alcançamos. Simplesmente porque acreditamos que não merecemos, que não somos dignos, que não podemos tê-la tão facilmente.

Sim, merecemos ter felicidade. Aqui, agora, neste mundo. E não a felicidade efêmera e enganosa contida no consumismo, nas drogas, nas coisas fúteis. O mundo não é um vale de lágrimas. Há dificuldades, problemas, mas não só isso. Viemos para cá para sermos felizes, para aproveitarmos as belezas que estão ao nosso alcance, para convivermos com as pessoas maravilhosas que habitam nosso planeta. Não temos porque nos culpar por algo que nem sabemos o que é.

A felicidade só pode ser alcançada se estivermos abertos para ela, se nos julgarmos merecedores dela. E todos nós somos.

terça-feira, 15 de agosto de 2006

Reciclagem já!

Estamos na era do descartável. Tudo pode ser comprado e, quando não atende mais aos nossos interesses, descartado sem muito peso na consciência. Infelizmente, essa prática está sendo transposta da nossa relação com as coisas para nossos relacionamentos com pessoas.

Não é preciso ir muito longe para ver isso. Se alguém comete um crime, é jogado numa penitenciária, sem qualquer preocupação com sua possibilidade de reabilitação. Se algum amigo faz algo que nos contraria ou magoa, deixamos de falar com ele sem dar chance de se explicar, se desculpar ou se redimir da sua falha. Se a pessoa que amamos nos trai ou tem algum problema sério, somos aconselhados a eliminá-la de nossa vida e fazer a fila andar. Afinal, ter alguém que precisa do nosso apoio ou do nosso perdão toma muito tempo, exige dedicação, coisas que ninguém quer oferecer aos outros.

No entanto, eu me pergunto sempre: será que está certo desistir das pessoas ao menor (ou mesmo maior) erro? Será que todos não merecem uma chance, um investimento mais intenso de nossa parte? As pessoas só têm valor se servem aos nossos interesses? Caso contrário, o melhor é descartá-las sem dó nem piedade?

Eu sou a favor da reciclagem nos relacionamentos. Acredito que não podemos desistir fácil das pessoas. Claro, há casos em que, por mais que se faça, o relacionamento não tem condições de seguir adiante. Afinal, é preciso dois para dançar um tango. Também há pessoas que não mudam. Mas sempre dá para tentar um pouco mais, para escutar o outro lado e se colocar na posição do outro, entendendo suas motivações, mesmo que não se concorde com elas. As pessoas não são objetos, não podem ser tratadas como tal.

Pode parecer ingenuidade, uma fé desmedida na humanidade, mas acredito que quando oferecemos uma nova chance, perdoamos os erros cometidos, a maior parte das pessoas é estimulada a buscar o acerto, a ter novas atitudes. Mal-entendidos fazem parte da vida, mas, quando não se dá oportunidade para o outro falar, podem causar sérios estragos em todos os tipos de relacionamento.

Que tal adotarmos o conceito de reciclagem, agora tão em moda para lidar com os objetos que não queremos mais, nos nossos relacionamentos? Acho que é uma das poucas chances que nos restam de mudar o mundo caótico e embrutecido em que vivemos. Investir nas pessoas, essa é a chave da nossa salvação.

terça-feira, 25 de julho de 2006

Vivendo o presente

"Viva o presente". Não existe frase mais batida que essa, porém quanta dificuldade em colocá-la em prática. Quanto tempo perdemos sofrendo com coisas que aconteceram no passado ou com o que pode acontecer no futuro, e deixamos o presente escapar por entre nossos dedos.

Não podemos modificar o passado. O que passou, passou. No máximo, podemos refletir sobre ele e tentar, agora, viver de forma melhor, mais produtiva. O futuro não existe. Está apenas dentro da nossa imaginação. Claro, podemos e devemos fazer planos, mas não ficar escravos dele. Não viver histórias e fantasias que não aconteceram (e, que, na maioria das vezes, não vão mesmo se realizar). Não viver de acordo com o que achamos que o outro vai fazer, com o que pode acontecer.

A vida acontece hoje, agora, no presente, e é disso que não podemos nos descuidar. Porque, enquanto ficamos preocupados com o passado ou com o futuro, o tempo vai passando, implacável. E deixamos de aproveitar as belezas e as coisas boas que se apresentam diante dos nossos olhos todos os dias. Deixamos de tratar as pessoas com consideração, com o cuidado que elas merecem. E o que passa não tem mais volta.

Tudo o que escrevi aqui é um amontoado de obviedades? Sim, com certeza é. Porém, as coisas mais óbvias e banais parecem ser as mais difíceis de entender e praticar. Por isso tanta procura por livros de auto-ajuda. Mas isso já é tema para um outro texto. Quem sabe...